30-06: Plebiscito – a grande barbeiragem*

barbeiragemAs linhas: “ A estratégia do governo Dilma Rousseff para dar uma resposta à onda de protestos pelo País foi chamada de ‘barbeiragem’ pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Antigo defensor da ideia, o petista queixou-se a aliados da forma ‘atabalhoada’ como foi gestada a proposta da convocação de uma constituinte exclusiva para discutir a reforma política, sem uma discussão prévia com o Congresso. Mais ainda, do recuo da iniciativa apenas um dia depois. As informações foram publicadas no jornal Folha de S. Paulo. “ (Fonte: Portal Terra)

As entrelinhas: Frustrada a ideia inicial da convocação de uma constituinte, o Governo (leia-se Presidente Dilma e Ministros Cardozo, da Justiça e Mercadante, da Educação) fixa-se na intenção de chamar um plebiscito para se votar a reforma política. Eles sabem que isto é impossível de ser realizado na prática, pelo principal motivo de que o tema é muito complexo para ser resolvido por sins ou nãos. Qual parcela de nosso eleitorado, por mais que se tente um processo de doutrinação, consegue entender o sistema de voto distrital, ou por listas, ou misto? Além disto estaria destruindo a relação já deteriorada do Executivo com o Legislativo (pois compete ao Congresso legislar sobre o tema). Dizendo que está consultando o TSE sobre a possibilidade de realizar tal ato temos aí mais uma tentativa do Governo, com sua popularidade em queda livre, empurrar o “mico” para os ombros dos outros e tentar melhorar sua imagem. Não é este o caminho para responder aos clamores legítimos da população que está nas ruas. Neste ponto o governador Alckmin foi muito mais ligeiro, politicamente falando: anunciou uma lista importante de corte de gastos do Governo estadual. Claro que todos vamos perguntar “por que só agora, que foi apertado pelas ruas?” Mas pelo menos está se movendo em direção aos pedidos da população. Fica aqui o apelo: Não ao plebiscito!

* Barbeiragem: s.f. Bras. Ação de conduzir inabilmente um veículo. (Dicionários online de Português)

Foto: esportes.r7.com

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24-06: Não deixem o encanto quebrar…

policiaAs linhas: Um grupo de manifestantes fechou a Via Dutra e a Rodovia Hélio Smidt durante protesto na noite desta sexta-feira (21), bloqueando o acesso ao Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, na Grande São Paulo. A manifestação, que saiu da Via Dutra, na altura de Guarulhos, deixou o tráfego lento em direção à capital paulista. Criminosos aproveitaram os bloqueios e fizeram arrastões na rodovia. Na Via Dutra, um grupo atacou carros, um furgão dos correios e o caminhão de uma transportadora e roubou celulares, remédios, travesseiros e cobertores. (Fonte e foto: Portal G1)

As entrelinhas: Neste momento mais de 75% das pessoas entrevistadas por uma agência de pesquisas estão a favor dos movimentos pacíficos de rua. A grande maioria dos participantes são pessoas bem intencionadas, corajosas, que resolveram “virar a mesa”. Razões para isto ter acontecido neste momento são indecifráveis, mas o fato real é que a série de movimentos que se espalhou pelo Brasil tem tudo para mudar para melhor a história do país. Mas a linha que separa a simpatia pela aversão é muito tênue e a grande maioria que leva à frente estas manifestações tem que atentar para alguns aspectos. Vou citar três, a meu ver cruciais, para que a continuidade dos movimentos prospere com resultados (não vou fazer um decálogo pois não sou uma agencia reguladora e muito menos um “sabe tudo”): 1. fujam da violência e da depredação do patrimônio público e privado. O número de vândalos, bandidos, cresce dia-a-dia e deve ser segregado (a Polícia já está mais esperta). Eles são parte do Brasil de hoje e é inevitável que se aproveitem do momento; 2. não bloqueiem estradas – isto é cruel. Incontáveis pessoas estão se movimentando por questões de saúde, por necessidade de trabalho. Este é o caminho mais fácil para gerar antipatia naqueles que, silenciosamente, apoiam as manifestações; 3. tenham uma causa para cada encontro – foco no foco! Um dia o PEC 37, outra ocasião a importação de médicos, ainda outra o julgamento dos recursos do mensalão, a falta de transparência com os custos da Copa, e assim por diante. Mas o objetivo tem que ser claro, como foi o das tarifas no transporte, para que as respostas venham.

p.s. digo “não deixem” em minha posição de colunista. Deveria dizer “não deixemos”, pois simpatizo fortemente com as causas abordadas e dentro de minhas possibilidades estou junto com os que pretendem mudanças, já!

22-06: Um chute no traseiro da FIFA (e não só)

fifaAs linhas: “A Globo desistiu de exibir a partida entre Espanha e Taiti, esta tarde (20) no Maracanã, para poder mostrar flashes dos protestos em diferentes cidades do país. A Fifa (Federação Internacional de Futebol) não permite a interrupção da transmissão de uma partida para exibição de outros conteúdos.(UOL) O presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Joseph Blatter, disse esta terça-feira que o futebol é ‘mais forte que a insatisfação das pessoas’, referindo-se às manifestações que ocorrem no Brasil. (O Jogo, de Portugal) Copa das Confederações gera prejuízo em Brasília – a abertura da Copa no dia 15 rendeu R$ 22 milhões, mas os custos do evento foram quase o dobro disso. Apesar do alto rendimento, o evento não foi o suficiente para recuperar o investimento gasto na festa, que custou quase R$ 41 milhões para o Distrito Federal. Também segundo dados do governo, o maior gasto foi com estruturas provisórias para o recém inaugurado estádio Mané Garrincha, que já havia custado mais de um bilhão de reais para os cofres públicos.(Exame.com) Os protestos que tomam conta das ruas nos últimos dias, atingindo inclusive o entorno e o interior dos estádios, deixaram integrantes da Fifa e de seleções apavorados com o andamento da Copa das Confederações no Brasil. A competição virou um pesadelo para a entidade. Não que a Fifa esperasse um evento perfeito, mas a proporção dos problemas é maior do que o pior cenário imaginado. (Folha)

As entrelinhas: Desde o dia 30 de outubro de 2007, quando a FIFA ratificou o Brasil como país-sede da Copa do Mundo de 2014, a entidade que comanda os destinos do futebol mundial passou a ser tida em nosso país como uma grande vilã. As imposições, incontáveis, foram se sucedendo e ao longo deste período, entre inúmeros “tapas e beijos”, nossas autoridades acabaram tendo que aceitar tudo que foi imposto e que agora se vê como exagerado é, no teste que ocorre na Copa das Confederações. Mas há um porém que as pessoas se esquecem: o tal de “caderno de encargos” assinado pelos países que se propõe a sediar eventos deste porte e que devem ser cumpridos. Aí está uma boa desculpa para o Presidente Blatter e seu acólito Jérôme Valcke, o duro gestor francês, autor da célebre recomendação “vocês precisam se pressionar, levar um chute no traseiro e fazer a Copa do Mundo.” Os nossos signatários, em época de grande euforia pelo crescimento econômico que o país passava, devem ter pensado que no final, ia se dar um jeitinho brasileiro e tudo iria acabar bem. Mas não tem sido bem assim, em que pesem as sucessivas denúncias de corrupção que atingem boa parte da cúpula da entidade, e colocam em dúvida a justiça das eleições de sedes das Copas de 2018 (Rússia) e 2022 (na potência futebolística de Qatar – onde?). O fato é que cedemos e continuamos a ceder a algumas exigências que beiram o ridículo e que acabaram fazendo da FIFA o alvo de grande parte das manifestações de rua. Se podemos construir estádios bilionários, atendendo a altos padrões de exigência, para um futuro de ociosidade e prejuízo, por que não se constroem escolas, hospitais e estradas? Os estádios pasteurizados estão lindos e maravilhosos – mas a mobilidade urbana, o grande ganho para as cidades-sede? Na verdade, talvez a FIFA tenha razão: muitos de nossos governantes precisam de um bom chute no traseiro. A FIFA e eles sabem bem, hoje, o que isto significa.

21-06: Economia global – medo ou pânico*?

bolsa-de-valores_As linhas:O dólar disparou pelo segundo dia consecutivo e alcançou o patamar de 2,25 reais, mesmo após o Banco Central atuar três vezes para conter a valorização da divisa, refletindo o nervosismo global diante dos sinais de que o programa de estímulo dos Estados Unidos pode estar perto do fim. (Reuters) Investidores retiram US$ 3,9 trilhões de mercados emergentes – os investidores estão retirando dinheiro dos mercados emergentes no ritmo mais rápido em dois anos devido à queda de ações, títulos e divisas causada por um desaquecimento econômico e um menor estímulo global. (Bloomberg) Europa reage negativamente a discurso de Bernanke – o índice pan-europeu Stoxx 600 perdeu 2,97%, fechando a 283,68 pontos. As bolsas da Europa fecharam em forte queda nesta quinta-feira, 20, reagindo ao discurso feito na quarta-feira, 19, pelo presidente do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, que estabeleceu um cronograma para o fim dos estímulos por parte da instituição. (Estadão)

As entrelinhas: talvez distraídos com a sucessão de manifestações que ocorrem em inúmeras cidades brasileiras, parece não estarmos percebendo a dimensão do difícil momento econômico por que passa o mundo. Preocupação maior devemos ter com nosso próprio país. Estamos próximos de findar o primeiro semestre do ano e quase todos os principais índices referenciais de nossa economia são preocupantes, para se dizer o mínimo. A taxa de crescimento industrial é pífia, e a cada dia se reduzem as estimativas de um PIB anual mais vigoroso em 2013. A inflação parece ter números “massageados”, desculpem-nos as entidades que os medem e publicam. Os preços das commodities estão caindo e a economia da China, nosso principal mercado, tem apresentado menor aceleração. Não vamos falar das quedas fortes e quase ininterruptas do Ibovespa – além de chegar a níveis próximos do início desta crise financeira mundial (final de 2008), são afetadas fortemente pela performance errática das ações X do empresário Eike Batista.

* O transtorno do pânico é definido como crises recorrentes de forte ansiedade ou medo. Vamos ficar atentos ao que se passa, sermos cautelosos com nossas economias pessoais para evitar que o medo se instale em nós. O passo dele para o pânico é curto! Tenhamos em mente que a economia é feita de ciclos e é preciso saber viver nas altas e nas baixas.

Foto: ofinanceiro.net

19-06: Manifestações – explicando ao Ministro

raul-seixasAs linhas: “Não conseguimos entender o que está ocorrendo ainda. São novas formas de organização de mobilização que ainda não compreendemos”. (palavras do ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, expressando a estranheza do Governo Federal com as seguidas manifestações de rua que ocorrem em todo o Brasil).

As entrelinhas: Excelentíssimo Senhor Ministro, tenho certeza que V.Exa. cometeu um ato falho. Logo em seguida a sua chefe, a Presidenta Dilma Rousseff, leu com todas as letras um discurso em que lhe explica o motivo pelo qual o povo está tão bravo. Eu vou colaborar com a digna Presidenta e repetir para V.Exa. uma carta que recebi hoje de meu plano particular de saúde: ” Comunicamos que o seu plano de assistência à saúde, coletivo por adesão, mantido pela Qualicorp com a Sul América Seguro Saúde S.A. sofrerá reajuste de 14,13% (Quatorze inteiros e treze centésimos por cento) sobre todos os preços, planos e faixas etárias, a partir de julho de 2013. A aplicação do reajuste anual respeita todas as regras e a periodicidade estabelecidas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para os planos coletivos por adesão.” (negritos da carta)

Exmo. Ministro, quer que desenhe? Li em algum lugar que a inflação oficial do período foi de 6,5%, exatamente, com absoluta precisão, no tal “teto da meta”. Isto é apenas um, unzinho motivo pelo qual todo brasileiro que raciocina minimamente está cansado de fazer papel de idiota. Se tiver interesse, posso lhe dar mais n razões para esclarece-lo melhor. Enquanto isto vou usar um trecho do fabuloso Raul Seixas, que demonstra a antiguidade dos problemas, que se fizeram agravar exponencialmente nos últimos tempos:

“Pare o mundo que eu quero descer, por que eu não aguento mais noticias de corrupção, violência que não param de aumentar. E pensar que a poluição contaminou até as lágrimas e eu não consigo mais chorar. E ainda por cima: ter que pagar pra nascer, ter que pagar pra viver, ter que pagar pra morrer.Tá tudo errado, tá tudo errado. Desorientado, cego vivo enquanto eu vou ficando aqui parado. Tá tudo errado, tá tudo errado.”

Foto de Raul Seixas encontrada em rollingstones.uol.com.br

17-06: Vista sua janela de branco

janelaAs linhas: Vista sua janela de branco! Se puder, saia às ruas. Se não puder vem pra janela – vamos mostrar que este movimento que está tomando conta do Brasil é espontâneo, e vem de um país cansado de tolerar a ineficácia do poder público. Publique sua foto com a hashtag #VemPraJanela. (Fonte: Convocação circulando pelas redes sociais, com alto grau de adesão – ato marcado em SP para 17 de junho, segunda-feira)

As entrelinhas: Quando os movimentos de rua começaram, em São Paulo, Rio de Janeiro e em seguida espalhando por Curitiba, BH e Porto Alegre já ficou a sensação de que não estávamos falando de um protesto contra os R$ 0,20 de aumento no preço das tarifas de ônibus do SP e Rio. A CNN escreveu (tradução livre) o que Linhas & Entrelinhas gostaria de dizer. Desculpem, é longo, fugindo ao nosso padrão, mas vale a pena ler:

“Os protestos que estão acontecendo no Brasil vão muito além do aumento de 0,20 no transporte público. O Brasil está atualmente experimentando um colapso generalizado na sua infraestrutura. Existem problemas nos portos, aeroportos, transporte publico, saúde e educação. O Brasil não é um país pobre e os impostos são extremamente altos. Os brasileiros não veem razão para ter uma infraestrutura tão ruim enquanto existe tantos impostos sendo pagos. Nas capitais dos estados as pessoas gastam até quatro horas por dia no transito, ou em seus carros ou no transporte publico lotado e de péssima qualidade.
O governo brasileiro tomou medidas paliativas para controlar a inflação, cortando impostos, e ainda não percebeu que é preciso mudar o paradigma focando na infraestrutura. Ao mesmo tempo o governo brasileiro está reproduzindo em uma escala menor o que a Argentina fez alguns anos atrás: evitando a austeridade e combatendo o aumento da taxa de juros SELIC, o que está levando ao aumento da inflação e ao pequeno crescimento.
Além do problema da infraestrutura, existem vários escândalos de corrupção que continuam sem julgamento, e os casos sendo julgados tendem a acabar com a liberação dos acusados. O maior caso de corrupção da história brasileira finalmente acabou com os acusados sendo condenados e agora o governo está tentando reverter o julgamento manobrando emendas constitucionais inacreditáveis: uma delas é a PEC 37, que visa aniquilar os poderes de investigação da promotoria publica, delegando a responsabilidade pelas investigações exclusivamente à Policia Federal. Mais ainda, outra proposta visa submeter as decisões da Suprema Corte ao Congresso – numa violação sem precedentes dos três poderes.  Estas são, de fato, as revoltas dos brasileiros.  Estes protestos não são meramente isolados, movimentos da extrema esquerda ou da extrema direita como alguns órgãos de imprensa afirmam. Não é um rebelião de jovens. É a manifestação da parte mais intelectualizada da sociedade que quer colocar um ponto final nestes assuntos. A classe média nacional, que sempre esteve insatisfeita com o esquecimento político, agora “acordou” – nas palavras daqueles que protestam.”

11-06: Afif, vaidade e mau exemplo

afifAs linhas: “A presidente Dilma Rousseff exonerou, a pedido, Guilherme Afif Domingos (PSD) do cargo de ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa. O decreto da exoneração foi publicado em edição extra do Diário Oficial da União na sexta-feira.  Mas a exoneração é temporária, já que Afif deve reassumir a função a partir da próxima quinta-feira, tão logo o governador Geraldo Alckmin retorne da França, para onde viajou neste domingo para apresentar a candidatura da capital paulista como sede da Expo 2020. Com a medida de Dilma, Afif Domingos poderá assumir como governador em exercício de São Paulo. Para pedir a exoneração do cargo, Afif se baseou em parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) que informou que ele pode ser vice-governador e ministro, desde que deixe a função em nível federal ao assumir o governo interinamente.” (Fonte: Zero Hora, de Porto Alegre)

As entrelinhas: A função destas entrelinhas é tentarmos ler o que não está óbvio nas linhas! Neste caso, não temos entrelinhas pois tudo está escrito claramente. Fica apenas o convite à reflexão: esta atitude de um político como Guilherme Afif Domingos é a) uso normal do “jeitinho” brasileiro de se viver; b) aplicação prática e integral da “Lei de Gérson”*, que imortalizou o craque Gérson de Oliveira Nunes; c) atividade didática para aplicação nas Faculdades de Direito do Brasil, mostrando como se deve conhecer as leis para saber como burla-las; d) todas as opções anteriores. Não seria muito mais simples e objetivo relembrar Getúlio Vargas e dizer, “A Lei, ora a Lei…”? Como ninguém mais se importa, mesmo…

* a Lei de Gérson é um princípio em que determinada pessoa age de forma a obter vantagem em tudo que faz, no sentido negativo de se aproveitar de todas as situações em benefício próprio, sem se importar com questões éticas ou morais (Wikipédia).