24-07: Economia de Baixo Carbono / Aquecimento Global

Correio – Como o Brasil está inserido no contexto da economia de baixo carbono? O Brasil aparece como portador de um grande potencial na economia de carbono. O que é preciso fazer para aproveitar isso? 

PC – O Brasil tem um papel fundamental no cenário mundial dentro do contexto da economia de baixo carbono, particularmente por destacar-se em diversas formas de geração de energia oriundas de fontes renováveis. A biodiversidade presente em nosso país é única e nos coloca em posição de destaque na construção de uma economia de baixa intensidade de carbono. De se comentar a abundancia de água em nosso território, com o potencial de construção de várias hidrelétricas e às possibilidades do uso da cana-de-açúcar tanto para a produção de etanol como a co-geração de energia elétrica a partir da biomassa.

Para aproveitar isto o Brasil precisa de uma grande transformação em sua base educacional, precisa tornar-se um país sério e responsável, refletindo no amadurecimento político e na formação das pessoas. Não basta culpar os governantes. Em uma país de dimensões continentais e com tantas riquezas, proporcionais ao tamanho dos problemas sociais e econômicos que enfrentamos, vamos levar décadas de contínua mudança para conseguirmos aproveitar este potencial referido. Para isto temos que começar a ser sérios em algum momento e parece que este momento nunca chega. Se chegarmos lá, e Deus queira, os principais instrumentos que necessitamos são regulação adequada, investimentos apropriados e por fim uma fiscalização severa da utilização destes investimentos. Matéria prima natural não nos falta – falta a educação e o comprometimento com a seriedade. 

Correio – O mercado do etanol vem enfrentando dificuldades nos últimos anos, após um período de crescimento. Qual é o potencial do Brasil nesta área e quais são os principais gargalos que precisam ser superados? 

PC – O Brasil já foi, ainda recentemente, o maior produtor de etanol do mundo, posição que voltou a perder para os EUA, que produzem o etanol prioritariamente a partir do milho. Já à partida nota-se a nossa vantagem – nos EUA temos a competição do uso do cereal para alimento contra a produção de uma energia cara e não tão limpa como o etanol do milho. As dificuldades que temos e que nos fizeram retroceder são várias: investimentos inadequados, falta de uma política de sustentação regulatória apropriada por parte da ANP, a “troca” feita pelo Governo Federal que priorizou a atenção ao pré-sal e abandonou em grande parte o apoio à produção de etanol. Outro grande problema sempre foi e continua sendo a política de preços da gasolina, que ignora os mercados internacionais e privilegia a Petrobras. Felizmente, neste momento e pelas razões recentes que estamos cansados de saber, o Governo está mantendo o preço de combustíveis nas alturas enquanto os valores internacionais estão muito abaixo dos aqui praticados. Isto é péssimo para o consumidor mas é muito bom para a produção de etanol, que hoje tem um retorno muito melhor que o açúcar para o industrial da cana. 

Correio – De que maneira um cenário de crise interfere no desenvolvimento da economia do baixo carbono?

PC – O cenário de crise política, econômica e até institucional que estamos vivendo interfere de maneira capital no desenvolvimento das possibilidades de evoluirmos na economia de baixo carbono. Os investimentos novos estão escassos, o que atrasa enormemente  a construção de hidrelétricas ao longo do país, bem como novos investimentos no degradado setor de produção de etanol. Não bastasse isto, a atenção dos governantes e dos empresários, inclusive das grandes construtoras, está muito mais voltada para questões macroeconômicas, políticas e jurídicas do que para olhar o tema crucial para o país e para o mundo que é o desenvolvimento da economia de baixo carbono. De nada adianta a nossa Presidente ir a Piracicaba inaugurar uma indústria de produção de etanol de segunda geração e entoar o grito de guerra da torcida do tradicional XV de Piracicaba se sua preocupação maior está em responder a pesadas acusações vindas do Tribunal de Contas da União. 

Correio – Qual é a participação dos governos, das empresas e das pessoas na formatação de políticas para combater o aquecimento global? 

PC – Estes são os três vértices que tem de atuar em conjunto para formatar as políticas de combate ao aquecimento global. Não é por menos que Nova Zelândia, Austrália e União Europeia tem a frente disparada neste quesito. Nestas regiões existe uma participação decisiva dos governos na criação de modelos rígidos a serem seguidos, com adequada regulação, as empresas realmente se engajam nestas políticas através de investimentos adequados e seguido os modelos propostos e as pessoas tem a educação e consciência de que são o instrumento final para este difícil combate. Em última análise, os beneficiários ou prejudicados pela contínua situação que vivemos de crescimento do aquecimento global; se não a nossa geração, pelo menos as de nossos filhos e netos.

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